Encontrei um sítio onde não existes, e lá me escondo a fim de não ser encontrada, porque é preciso sobreviver, é preciso que não me encontres para que eu possa encontrar novos sítios, para que eu possa abrir o meu coração, para que eu consiga respirar de novo. Porque eu morri, sabes? Arrastei-me como um cadáver por entre as pessoas, e fingi que estava viva, fingi que me mexia e que sorria, e que não me importava. Fingi que te odiava, e senti raiva de mim por não ser capaz de guardar isso, por não ser capaz de te matar. Porque tu merecias ter morrido dentro de mim. Ou eu. Já nem sei, perdi a conta a isto tudo, perdi a conta dos dias, dos meus, dos passos que dei sem saber para onde, das voltas dentro da cabeça para que a tua imagem não surgisse, e lá vinha ela, todos os dias, várias vezes ao dia. E porque se morre no vazio, morre-se na solidão que encerra a não existência. Disse-te que não podia viver sem ti, disse tantas coisas, até que me disseram que era tudo mentira, que não se morre, que se consegue viver sempre, que é tudo mentira. E de repente vi-me a andar, ainda respirava, ainda existia. Ainda existo e se tu consegues eu também consigo, porque eu não quero ser a mulher dentro do livro a sufocar e a morrer de amor sozinha. Não quero viver sozinha, e no entanto sozinha vive-se bem, não é assim tão mau, é bom. E porque ainda acontecem coisas, acontecem todos os dias, a todas as horas, a todas as pessoas. E a ti, não posso substituir, ninguém vive por ninguém, e eu só posso viver esta vida, não é? Dizem-nos tantas coisas boas, tantas, e é tão difícil integrar tudo, e no entanto é simples, é simples. E eu não quero morrer dentro do livro, da história do livro, nas páginas. E o amor diz-se generoso, diz-se em letras grandes, e então eu vou escrever essas letras em grande, e vou ser aquilo que nunca tive coragem de ser, vou ser melhor. Vou aprender as tuas palavras todas, aliás, já as integrei, uma a uma, e vou guardar o melhor, só quero guardar o melhor. E se não me queres em ti, eu vou-me embora. |